quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Nós e "Farpas XXI"

NÓS E FARPAS XXI


A proposta de criar um “blog” surgiu da Manuela Queirós, quando as ideias que pululavam na sua cabeça já não aguentavam mais ficar confinadas à caixa craniana. Foi, então, que Maria Ortigão, inspirada pela fina ironia, pela escrita sublime e pelas constantes gargalhadas, proporcionadas pelas inteligentíssimas penas de Eça de Queirós e de Ramalho Ortigão em As Farpas, fez nascer Farpas XXI.

“Grosso modo”, pode-se dizer que o conceito de As Farpas é uma espécie de antepassado dos modernos “blogs”. De facto, entre Maio de 1871 e Outubro do ano seguinte, apareceram, nas bancas de jornais, umas pequenas revistas ou cadernos, que, todos os meses, comentavam o que de mais importante acontecia no país.

Assim, através de As Farpas, Eça e Ortigão deliciavam-se a criticar as constantes mudanças de governo e a alternância de ministros, nos finais do século XIX; mordiam ferozmente os calcanhares dos políticos, a quem chamavam “amáveis bandidos” e não compreendiam porque “O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia”. Mas a sátira não se ficava apenas pelos corredores da política. A verdade é que parece que nada lhes escapava, pois também elegeram como alvos a farpear o clero, que, na realidade, era muito pouco católico e a sociedade portuguesa, a qual define desta maneira: “… nós somos o país dos tristes, dos cismáticos, dos piegas, dos choramingas. Isto procede de sermos o país dos mandriões e dos ignorantes.”
Conclusão: qualquer semelhança com a actualidade não é pura coincidência!

Não é nosso objectivo plagiar o estilo daqueles escritores portugueses, até porque nunca o conseguiríamos igualar. Pretendemos, sim, aproveitar o conceito e a intenção de criticar humoristicamente o que vai acontecendo por este país e pelo resto do mundo também.

Finalmente, aproveitamos este espaço para sugerir, é claro, a leitura de As Farpas, que a Principia deu à estampa há alguns meses e que resultou de um trabalho notável de coordenação de Maria Filomena Mónica. É um livro deliciosamente bem escrito, repleto de humor inteligente e satírico, e, sobretudo, faz-nos pensar naquilo que Portugal foi e naquilo que é hoje.
Caros amigos, leiam, leiam muito, mas leiam aquilo que tem realmente qualidade em todos os níveis. Deixem-se de “pop stars”, de “coincidências” e de “Verónicas”! Para que precisamos de palavras balofas e bacocas, quando se pode farpear?


Manuela Queirós e Maria Ortigão

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