segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Comemoração

(...)
- eh! pa, passa tão depressa um ano que nem demos por ela. Quem diria que chegariamos até aqui.
(Que horror, deixamos passar a data; eh lá! somos mais velhas q o
Homem Fantasma, Parabéns!)
M.Q.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Intercâmbio

Bico calado


Se eu fosse mal educado
dizia que é muito feio
construir o socialismo
com fascistas de permeio

Mas como não sou, eu fico
cego, surdo, mudo e quedo
a repetir uma história
sem lhe saber o enredo


Sérgio Godinho.


M.Q.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Apeteceu-me (porque hoje é dia de S. Valentim)

Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.
Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.
Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
Pablo Neruda
20 poemas de amor y una canción desesperada
Poema 15
Manuela Queirós.
(Se quiserem depois traduzo)

Não esquecer! 20 de Fevereiro- 5 de Março

Está aí o Fantas


M.Q.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Ó BILL, DÁ SÓ UMA MOEDINHA!




O homem mais rico do mundo veio a Portugal e ninguém conseguiu sacar-lhe uns trocos. Não era nada extraordinário para alguém habituado a doar a países de terceiro mundo e com graves carências em todos os níveis.
Durante a condecoração, o futuro ex-presidente Jorge Sampaio podia, como quem não quer a coisa, meter a mão na carteira de Bill Gates e agarrar umas verdinhas. O americano nem ia dar pela falta, não o ia prejudicar e Portugal quase resolvia os problemas do défice.
Agora falando um pouco mais a sério, devia-se tê-lo raptado e exigir um resgate. Não era necessário recorrer àqueles raptos à fundamentalista islâmico, com divulgações mediáticas, homens armados e de cara escondida e o sequestrado de joelhos a chorar pela sua libertação. Ia ser um rapto subtil, em que Bill Gates nunca teria a percepção do sarilho em que o meteriam e acabaria por alegremente pagar para sair daqui.
Quando fosse em direcção ao aeroporto para voltar para os States, aproveitava-se a crónica má sinalização portuguesa e desviava-se o seu automóvel para uma das aldeias mais despovoadas e interiores do país. De preferência, uma terreola, onde não houvesse electricidade, telefone e os telemóveis não tivessem rede. As casas seriam muitíssimo simples, nada da casa inteligente que Bill construiu para si. Resumindo, o milionário americano teria de sobreviver sem os seus aparelhómetros e numa habitação, cujo rés-do-chão estaria ocupado por animais de pastoreio.
Enquanto Bill aguardaria por uma operação de salvamento, teria de sobreviver em tão inóspita terra. Para ter um prato de saborosos rojões ou de feijoada, acompanhados por uma boa sopa à lavrador, deveria ajudar nas tarefas: levar o gado a pastar, cortar lenha para o fogão para ter aquecimento nas longas noites de Inverno, regar, plantar e semear, limpar os estábulos e ir fazer as necessidades ao buraquinho que se encontraria no exterior da casa. Seria uma espécie de “Quinta da Celebridade”.
Sendo uma aldeia no interior, a maior parte da população teria uma idade muito avançada, para quem computador é uma palavra que a canalha arranjou de modo a esconder a asneira que toda a gente sabe. Desta maneira, ainda que Bill soubesse arranhar o português, nunca conseguiria ter tema de conversa com os autóctones. A única coisa que receberia daquela gente, em especial das velhotas, seria uma quantidade enorme de beijos repenicados, molhados e que picam por causa daquelas verrugas com pêlos fortes que muitas têm no queixo.

(Faço aqui um pequeno parênteses para partilhar um trauma de infância. Quando era criança, não pensava e a minha mãe ainda me conseguia arrastar para a missa, não percebia por que razão Deus me castigava. Seria por eu saber sempre onde procurar as prendas de Natal e de aniversário antes dos dias festivos? Seria por ir comer bolachas entre as refeições? Seria por ter contado a toda a gente que a D. Ermelinda ressonava durante a homilia? Mas isso toda a gente fazia! Era castigo demasiadamente feroz ter de receber dos milhões de beatas aqueles odiosos beijos molhados que picavam. Já não bastava ter de lá passar uma hora e estar a perder os desenhos animados, ouvir uma série de palavreado que não percebia, ter, muitas vezes, de dar o meu lugar a idosas que adormeciam enquanto o Diabo esfregava um olho e ainda tinha de apanhar com velhotas babosas?
Se o momento da missa em que nos cumprimentamos se chama “O abraço da paz”, por que razão não nos limitamos a dar umas palmadinhas nas costas? Tanto sofrimento me poupariam!)

No meio de tão primitiva terra, o patrão da Microsoft não aguentaria nem uma semana e estaria disposto a pagar o que fosse preciso para voltar para o seu império ultramoderno. Aí, sim, de repente, as autoridades portuguesas já começariam a fazer alguma ideia do paradeiro do americano. Encorajado com estas notícias, ainda subiria mais a parada. E, para tornar as coisas mais interessantes, o governo português poderia insinuar que talvez, em escutas telefónicas, sem querer, teria revelado aos militantes do Bloco de Esquerda e do PCP a localização de Bill. Perante esta perspectiva, já não havia dúvida: todo o dinheiro do desesperado americano era nosso.
Aprendam, seus governantes provincianos, paroquianos e outros –anos que entretanto devem estar a aparecer.

Maria Ortigão



SEGURANÇA SOCIAL OU O IMPÉRIO DO MAL



1. Quando os asnos são mais que muitos
Não sei por que motivo me dou ao trabalho de escrever, mais uma vez, sobre tão famigerada instituição, mas penso que acaba por ser uma forma de catarse. Se isto continua assim, as sequelas destas farpas vão ser mais numerosas que os filmes de James Bond e igualmente enjoativas (sobretudo para mim).
Recordando a última enormidade da Segurança Social, a minha mãe foi impedida de fazer os descontos, porque, segundo dados informáticos, já não o fazia desde Março de 2003 (mesmo que isso fosse verdade, só agora é que reparavam…). Após tamanha descoberta, tivemos de nos deslocar mais quatro vezes; repito, quatro vezes; sim, leram bem, quatro vezes; para os incrédulos, quatro vezes; não, não estão a precisar de óculos, foram mesmo quatro vezes. Enfim, a inteligência daquela gente é tão limitadinha, coitadinha, que não conseguem dizer tudo de uma vez o que é preciso entregar: primeiro, eram umas fotocópias de determinados recibos; depois, eram outras de outros recibos; depois, era uma declaração; depois, patati patatá.
Da última vez (última, pensávamos nós! “Naquele engano da alma, ledo e cego/Que a fortuna não deixa durar muito…”), foi-nos dito que, com os documentos apresentados, já estaria tudo em ordem. Até tiveram a “amabilidade” de passar à minha mãe uma declaração, devidamente carimbada e assinada, explicando a situação e as razões pelas quais não pôde descontar, para que não tivesse de pagar os juros de mora do último mês.
Dirigimo-nos, então, à tesouraria, apresentámos a tal declaração, o funcionário leu-a e eu paguei com cartão. Quando o funcionário me comunicou a quantia, eu achei algo de estranho, mas como sou tão boa a fazer contas de cabeça como António Guterres… No entanto, acabei por perguntar se aquele total incluía juros. Pois claro que incluía, se a senhora não pagava há dois meses! Valham-me todos os deuses de todas as religiões! Nem com a declaração o homem percebeu que não era para pagar com juros? Cá estava um exemplo de analfabetismo funcional, ou seja, leu, mas não conseguiu compreender uma simples frase. De declaração novamente erguida, expliquei ao senhor todos os porquês. Dá-me, de seguida, a seguinte resposta:
— Já está paga. Também são só 0,65€!
E se à minha mãe, ao pagar, faltassem 0,65€ também poderia alegar que eram só 0,65€? Passavam-lhe recibo na mesma? Claro que não! E já agora, sabia que existem seres vivos unicelulares mais inteligentes do que você?
Bom, tentando não me chatear a sério (a altura do balcão × os meus 0% de flexibilidade = nenhuma hipótese de ir lá dentro agredir o senhor), pedi a restituição dos meus 0,65€. Diz-me o funcionário:
— Isso vai dar muito trabalho!
Desta vez, reagi bem. Olha a novidade! Toda a gente sabe que trabalhar é coisa que raramente acontece nestes sítios! Paciência, o “meu amigo” teria mesmo de trabalhar, porque eu não arredaria pé sem os meus amados 0,65€. Ele até podia aproveitar e quebrar um pouco a cansativa rotina e experimentar o labor desconhecido. Lá veio um técnico, tirou recibos, voltei a marcar, voltou a retirar recibos… Por fim, a César o que é de César!

2. Quando o telefone toca
Alguns dias depois, a minha mãe contou-me que tinham telefonado a pedir que levasse mais fotocópias, porque as outras se tinham extraviado!!! Tradução: houve, portanto, um palerma que perdeu documentos de grande responsabilidade. Francamente, um S. Bernardo fazia melhor o vosso serviço, cambada de burros!
Pela quinta vez, desloquei-me àquele antro de ignomínia. Quando lá cheguei, resolvi fazer algo de realmente produtivo com o meu tempo de espera e fui ao balcão pedir o Livro de Reclamações. Ao ouvir estas palavras, o funcionário sobressaltou-se:
— O Livro de Reclamações? Para quê?
— Para reclamar! – de entre as muitas utilidades do Livro Amarelo, até me envergonho de só me lembrar desta, vejam lá!
O senhor foi chamar uma senhora a quem pedi novamente o Livro.
— O Livro de Reclamações? Para quê?
Mau, está tudo parvo ou quê? Comecei a pensar que, à entrada daquele edifício, deveria haver a seguinte advertência: Somos tão estúpidos que até mete impressão!
— Para reclamar. – respondi eu.
— Sim, mas para reclamar de que situação? – quis saber a senhora.
Depois de ter desenrolado a incrível história da minha mãe, fui conduzida até uma sala e obtive o Livro. Enquanto escrevia, talvez para suavizar a minha reclamação (Vai sonhando, querida! Prepara-te para um texto, no mínimo, arrasador!), dizia:
— Sabe, quando os computadores dão erro…
— Pois, mas os computadores só trabalham por meio dos dados e manejamento de pessoal humano!
— Ah! Não é assim tão linear! Ainda há pouco, tivemos de chamar os técnicos e nem eles sabiam qual era o problema!
Acredito que fosse difícil encontrar o problema, uma vez que analisaram o doente errado. Se fizessem um encefalograma àquela gente, de certeza que o diagnóstico seria: falhas gravíssimas em todas as operações cognitivas, resultando em profundo estado vegetativo.
Como estava mais preocupada com o meu texto, fiz ouvidos de mercador às desculpas esfarrapadas.
Foi a primeira vez que escrevi num Livro de Reclamações e devo confessar que fiquei um pouco decepcionada, pois só temos à disposição cerca de vinte linhas (se calhar, devia ter feito uma reclamação ao próprio Livro de Reclamações por ter tão pouco espaço!). Tive de resumir a minha história e de apelidar os funcionários de incompetentes para aí umas cem vezes, quando o queria fazer, pelo manos, umas quinhentas.
Findo o meu libelo, tive direito a um duplicado, em que não se percebia rigorosamente nada! Parecia um daqueles copianços, cujas letras estão apenas decalcadas.
Até à data, o telefone ainda não tocou. Ainda!...



Maria Ortigão