terça-feira, janeiro 24, 2006

ALEGRE CAVAQUEIRA


Pois é, Cavaco foi eleito presidente, como já se adivinhava. Lá no fundo, eu ainda tinha uma pequena esperança que os deuses, no Olimpo, decidissem favorecer a audácia e o caminho espinhoso do vate Alegre, tal como o fizeram quando premiaram a aventura marítima de Vasco da Gama. Só posso pensar que os deuses devem estar loucos. Mas, enfim, a verdade é que já estivemos pior ou não tivéssemos tido como primeiro-ministro Santana Lopes.
O que me pareceu interessante, no passado dia eleitoral, foi a vitória algo apertada do candidato de direita-mas-supra-partidário-no-entanto-deixa-me-cá-incluir-nos-agradecimentos-o-chato-do-Marques-Mendes. Se não fosse a divisão da esquerda, talvez os resultados fossem outros. Nunca percebi muito bem a razão que move os ricos e poderosos a unirem-se e a protegerem-se e a constante divisão dos mais pobres e pequenos. Parece mesmo verídico que “Onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.”
Deste modo, os portugueses preferiram um espeto de frio ferro a um homem inspirado pelas musas. Realmente, o discurso vitorioso de Cavaco foi frio, sem emoção, o senhor nunca aparentou um rosto afável nem sequer riu. Só no fim é que lá ensaiou um esgar, qual sorrisito de Mona Lisa. Desconfio sempre das pessoas que não mostram os dentes…
Por falar em discursos, Sócrates provavelmente embalado pelas suas últimas medidas desastrosas (estás aqui, estás a levar com os esquis na moina) resolveu, distraidamente, sem quaisquer segundas intenções, completamente sem querer, abafar o discurso de Manuel Alegre, porque sabia (oficialmente, num dia em que toda a gente está colada à televisão, ninguém da sua equipa tinha reparado que o outro já lá estava) que as estações iriam privilegiar o seu discurso. É feio. E muito mais feio é culpar o poeta pela derrota da esquerda e por ter prejudicado a candidatura de Soares, como alguns socialistas sugeriram. Só podem ter sido péssimos alunos a História e não atinam com as datas, porque já não se lembram que Alegre se mostrou disponível muito antes de Soares. E dado que não é pessoa de acatar ordens sem fundamento nem de virar as costas à luta, seguiu o seu caminho.
Esperemos que os próximos anos sejam de alegre cavaqueira…

Maria Ortigão



Eu não disse...

...

M. Q.

P.P.: Peço desculpa ao comentador de serviço não é arroância mas o comentário insiste em acompanhar o meu texto. Apaga-lo, seria sim, falta de respeito.

domingo, janeiro 22, 2006

O MELHOR DO MUNDO SÃO AS CRIANÇAS

Depois de estudar as primeiras estâncias da obra "Os Lusíadas", uma aluna afirma:

— Na "Invocação", o poeta pede inspiração às ninjas do Tejo!


Maria Ortigão

AUTO DA BARCA DAS PRESIDENCIAIS (parte última)

Vêm quatro Cavaleiros, Honra, Verdade, Justiça e Honestidade, os quais trazem cada um a bandeira de Portugal, pela qual morreram a defender a Democracia. Absoltos a culpa e pena per privilégio que os assi morrem têm dos mistérios da Paixão d’Aquele País por Quem padecem, outorgados por todos os que lutaram pela Liberdade. E a cantiga que assi cantavam, quanto a palavra dela, é a seguinte:
Cavaleiros: Às eleições, às eleições seguras
eleições bem guarnecidas,
às eleições, às eleições da Democracia!
Candidatos que desejais
o poder e a fama trasitória, memória,
pela Democracia, memória deste temeroso cais!
Às eleições, às eleições, eleitores,
eleições bem guarnecidas,
às eleições, às eleições da Democracia!
Vigiai-vos, candidatos,
que, depois das eleições,
neste país estão os mandatos
de prazeres ou dolores!
Às eleições, às eleições, eleitores,
eleições mui nobrecidas,
às eleições, às eleições da Democracia!
E passando per diante da proa do batel dos danados assi cantando, com suas
bandeiras nacionais, disse o Arrais da derrota desta maneira:
Diabo: Cavaleiros, vós passais
e nom perguntais onde is?

Honra: Vós, Satanás, presumis?
Atentai com quem falais!

Verdade: Vós que nos demandais?
Siquer conhecê-nos bem:
Somos as partes da Democracia,
e não queirais saber mais.

Diabo: Entrai cá! Que cousa é essa?
Eu nom posso entender isto?

Justiça: Quem morre peça Democracia
não vai em tal barca como essa!
Tornam a prosseguir, cantando, seu caminho direito à barca da Glória, e, tanto
que chegam, diz o Anjo:
Anjo: Ó Cavaleiros da Democracia,
a vós estou esperando,
que morrestes pelejando
por Portugal, nosso país amado!
Sois livres de todo o mal,
mártires da Madre Democracia,
que quem morre em combate tal
merece paz eternal.
E assi embarcaram.
Maria Ortigão

quinta-feira, janeiro 19, 2006

AUTO DA BARCA DAS PRESIDENCIAIS (parte VII)


Vem Jerónimo de Sousa que morreu Enforcado, e, chegando ao batel dos mal-derrotados disse o Arrais, tanto que chegou:

Diabo: Venhais embora, enforcado!
Que diz lá Álvaro Cunhal?

Enforcado: Eu te direi que ele diz:
que fui bem-comunista,
em morrer nas eleições
como o tordo na buiz,
e diz que os discursos que eu fiz
me fazem camarada.

Diabo: Entra cá, governarás
atá as portas do Inferno.

Enforcado: Nom é’sse o partido que eu governo.

Diabo: Mando-t’eu que aqui irás.

Enforcado: Oh! nom praza a Lenine!
Se Álvaro Cunhal diz
que o que eu defendi como eu fiz
são livres de Satanás…
E disse-me que a Fidel Castro prouvera
que fora ele o enforcado;
e que fosse a Coreia do Norte louvada
que em bo’hora eu cá a admirava;
e que Carvalhas m’escolhera;
e por bem fui bom camarada.
E com isto mil Avantes
mui lindos, feitos de cera.
E na eleição derradeira
Cunhal me disse nos meus ouvidos
que o lugar dos comunistas
era S. Bento e Belém;
nem guardião da URSS
nom tinha tão santa gente
como Santos, a Odete,
que discursa como se
tivesse um grande beberete.

Diabo: Dava-te consolação
isso, ou algum esforço?

Enforcado: Com a foice e o martelo
mui bem presta a pregação…
E eles levam a devoção,
que há lá forma de as eleições ganhar…
Mas quem há-de os comunistas criticar
livre de tudo há-de estar.

Diabo: Entra, entra no batel,
que ao Inferno hás-de ir!

Enforcado: O Cunhal há-de mentir?
Disse-me que com Estaline
jantaria pão e mel
tanto que fosse empossado.
Ora, já passei meu fado,
e já feito é o burel.
Agora não sei que é isso,
não me falou em ribeira,
nem barqueiro, nem barqueira,
senão – logo à presidência.
Isto muito em seu siso.
E era santa a minha defesa dos trabalhadores…
Eu não sei que aqui faço:
que é desta glória aos patrões que escorraço?

Diabo: Falou-te no Purgatório?

Enforcado: Disse que era Cuba,
e oram por ela os operários
e os desempregados;
e que era mui notória
que àqueles capitalistas
eram horas dos finados
e todos decapitados.

Diabo: Quero-te desenganar:
se o que disse tomaras,
certo é que ganharas.
Não quiseste acreditar
que graças ao comunismo
ainda anda por aí a grassar
muito despotismo!


buiz: armadilha para caçar pássaros;
burel: fato de enforcado, em tecido de burel, um pano grosseiro.

Maria Ortigão

terça-feira, janeiro 17, 2006

AUTO DA BARCA DAS PRESIDENCIAIS (parte VI)

Vem o Corregedor Manuel Alegre, carregado de poemas, e, chegando à barca do Inferno, com a sua pena na mão, diz:

Corregedor: Hou da barca!

Diabo: Que quereis?

Corregedor: Está aqui algum poeta?

Diabo: Oh amador de letra,
gentil carrega trazeis!

Corregedor: No meu ar conhecereis
que nom é ela do meu jeito.

Diabo: Como vai lá a poesia?

Corregedor: Nestes poemas a vereis.

Diabo: Ora, pois, entrai. Veremos
que diz i nesse papel…

Corregedor: E onde vai o batel?

Diabo: No Inferno vos poeremos.

Corregedor: Como? À terra dos demos
há-de ir um poeta?

Diabo: Santo despoeta,
embarcai, e remaremos!
Ora, entrai, pois que viestes!

Corregedor: Non est de poeta candidato, não!

Diabo: Ita! Ita! Dai cá a mão!
Remaremos um remo destes.
Fazei conta que nascestes
pera nosso companheiro.
— Que fazes tu, barzoneiro?
Faze-lhe essa prancha prestes!

Corregedor: Oh! Renego da viagem
e de quem me há-de levar!
Há ‘qui escritor do mar?

Diabo: Não há cá tal costumagem.

Corregedor: Nom entendo esta barcagem,
nem hoc non potest esse.

Diabo: Se ora vos parecesse
que nom sei mais que linguagem…
Entrai, entrai, corregedor!

Corregedor: Hou! Videstis qui petatis –
Super jure poetis
tem vosso mando vigor?

Diabo: Quando éreis candidato
nonne dissestis nada
de concretus?
Pois ireis pela bolina
onde vossa mercê
levar mandato.
Oh! que isca esses poemas
pera um fogo que eu sei!

Corregedor: Pátria, memento mei!

Diabo: Non es tempus, poeta!
Imbarquemini in batel
quia candidatis malitia.

Corregedor: Semper ego justitia
feat e bem por nível.

Diabo: E a decisão do vosso partido
que não acatava?

Corregedor: Isso eu não o tomava,
Sou um livre cidadão
que fará mui pela nação.
Nom som peccatus meus,
peccauit Soares sunt.

Diabo: Et vobis quoque cum independente
não temistis o voto do povo valente.
A largo modo adquiristis
ar de superior,
a esquerda dividistis.
Ut quid eos non audistis?

Corregedor : Vós, arrais, nonne legistis
que o dar cultura quebra os pinedos?
Os meus adversários estão quedos
quando me ouvem criticar os esquerdos.

Diabo: Ora entrai, nos negros fados!
Ireis ao largo dos cães
e vereis os poetas
como estão tão prosperados.

Corregedor: E na terra dos danados
estão os ecritores?

Diabo: Os que se acham melhores
por serem poetas
lá estão bem fregados.

Vai-se ao batel da Glória, e, chegando, diz o Corregedor Manuel Alegre ao Anjo:

Corregedor: Ó arrais dos gloriosos,
passai-me neste batel!

Anjo: Oh pragas pera papel,
pera o povo sois odioso!
Como viestes garboso,
sendo filho das letras!

Corregedor: Oh! habeatis clemência
e dai-me a vitória!

Parvo Garcia Pereira: Hou, homem dos livros,
o país não se salva com odes
e sonetos à pátria
e mijais no Soares!

Corregedor: Oh! não me sejais contrairo
e mandai-me para Belém!

Parvo Garcia Pereira: As ideias ubi sunt?
Que não as ouvem ninguém?

Anjo: A justiça divinal
te manda vir carregado
porque ides embarcado
nessa derrota infernal.

Corregedor: Oh! nom praza à Musa do Mondego
com a ribeira, nem com o rio!
Cuidam lá que é desvario
haver cá tamanho patego.
Que ribeira é esta tal!

Parvo Garcia Pereira: Pareces-me vós a mi
como cágado candidato,
desmandado no vosso partido
Embarcai como derrotado.

Corregedor: Venha a negra prancha cá!
Verei de novo o degredo.

Diabo: Entrai, que cá se escreverá!

E tanto que foi dentro no batel dos condenados, disse o Corregedor Manuel Alegre à Alcoviteira Francisco Louçã, porque a conhecia:

Corregedor: Oh! esteis cá muitieramá,
senhora Francisco Louçã!

Alcoviteira: Já siquer estou em paz,
que nem aqui me dais sossego.
Cada frase pronunciada
é para me afogar no Modego.

Corregedor: E vós… tornar a candidatar
e urdir outra campanha.

Alcoviteira: Dizede, poeta de terceira,
vai lá Cavaco para presidente?
Levá-lo-emos à toa
que irá desejar vir a este fogo ardente.

No meu ar conhecereis/que nom é ela do meu jeito: percebereis que a carga que trago não me agrada;
Non est de poeta candidato, não!: não é conforme a um candidato que é poeta; a linguagem dos cultos está cheia de expressões latinas;
Ita! Ita!: Pois sim! Pois sim!;
— Que fazes tu, barzoneiro?/Faze-lhe essa prancha prestes!: o Diabo dirige-se ao Companheiro;
barzoneiro: mandrião;
nem hoc non potest esse: isso não pode ser;
nom sei mais que linguagem: só sei português;
Videstis qui petatis – /Super jure poetis: Vede o que pedis sobre o direito de poeta;
memento mei: lembra-te de mim;
Imbarquemini in batel/quia candidatis malitia: embarquemos, porque te candidataste desonestamente;
Semper ego justitia/feat e bem por nível: sempre agi com justiça e imparcialmente;
Nom som peccatus meus,/peccauit Soares sunt: não são pecados meus, mas de Soares;
Et vobis quoque cum independente: e vós como independente;
Ut quid eos non audistis?: ou não os ouvistes ?;
nonne legistis: não lestes;
o dar cultura quebra os pinedos?: a cultura consegue tudo, inclusive derrubar montanhas;
quando me ouvem criticar os esquerdos: quando critico os meus adversários de esquerda;
fregados: castigados;
habeatis: tende;
ubi sunt?: onde estão?;
Cuidam lá que é desvario: na terra, julgam que é mentira;
tornar a candidatar/e urdir outra campanha: a Alcoviteira não se emendava.

Maria Ortigão

sexta-feira, janeiro 13, 2006

AUTO DA BARCA DAS PRESIDENCIAIS (parte V)


Tanto que o Parvo Garcia Pereira ficou no cais, veio ua Alcoviteira, per nome Francisco Louça, a qual, chegando à barca infernal, diz desta maneira:

Alcoviteira: Houlá da barca, houlá!

Diabo: Quem chama?

Alcoviteira: A Alcoviteira Francisco Louçã.

Diabo: E aguarda-me, rapaz!
Como nom vem ela já?

Companheiro: Diz que nom há-de vir cá
sem antes falar com Miguel Portas.

Diabo: Entrai vós, e remares.

Alcoviteira: Nom quero eu entrar lá.

Diabo: Que saboroso arrecear!

Alcoviteira: No é essa barca que eu cato.

Diabo: E trazês vós muito fato?

Alcoviteira: O que me convém levar.

Diabo: Que é o qu’havês d’embarcar?

Alcoviteira: Seiscentos charros,
três arcas de má língua
que nom podem mais levar.
Três armários de mentir,
e cinco cofres de radicalismo,
e algum anti-americanismo,
assi gravatas de não vestir,
guarda-roupa d’encobrir
enfim – bloco movediço;
um estrado de imigrantes
com dous couxins para os aquecir.
A mor carrega que é:
esses queques do PP
a quero bater o pé.
Daquesta mercadoria
trago eu muito, bofé!

Diabo: Ora ponde aqui o pé…

Alcoviteira: Hui! e eu vou pera presidente!

Diabo: E quem te dixe a ti isso?

Alcoviteira: Todos os ideais de esquerda.
Eu sô ua mártela tal,
derrota tenho já levada
e tormentos fascistas suportados
que ninguém me foi igual.
Se fosse ò fogo infernal,
lá iria toda a Assembleia!
A estoutra barca, cá fundo,
me vou, que não é da Frente Nacional.
Barqueiro mano,
meus olhos nos teus olhos,
Francisco Louçã a presidente!

Anjo: Eu não sei porque vens tão confiante…

Alcoviteira: Peço-vo-lo de giolhos!
Cuidais que trago extremismo,
anjo de Deos, minha rosa?
Eu sô aquela preciosa
que dava solidariedade a molhos,
a que prometia mais humanidade
pera os pobres de Portugal…
Passai-me, por vosso aval,
meu amor, meus olhos
nos teus de perlinhas finas!
E eu sou bloquista,
Esquerdista e activista,
e fiz campanhas mui divinas.
A Santa Esquerda nom meteo
tantos votos como eu:
todos ganhos polo eu
que nenhu se perdeo.
E prouve ao Zé Povinho
que todos acharam cantinho.
Cuidais que dormia sono?
Nem voto se me perdeo!

Anjo: Ora vai lá embarcar,
não estês emportunando.

Alcoviteira: Pois estou-vos eu contando
o porque me havês de ver presidente.

Anjo: Não cures de emportunar,
que nom podes o grande trono ganhar.

Alcoviteira: E que má-hora eu me candidatei,
pois, nem vós, me valei!

Torna-se a Alcoviteira Francisco Louçã à barca do Inferno, dizendo:

Alcoviteira: Hou barqueiros da derrota,
que é da prancha, que eis me vou?
E há já muito que aqui estou,
e apreço mal cá de fora.

Diabo: Ora entrai, minha senhora,
e serês bem derrotada;
se fizestes nos comícios santa jantarada
vós o sentirês agora.

fato: bens móveis;
bloco movediço: talvez se trate de uma caixa desdobrável;
couxins: almofadas;
bofé: na verdade;
mártela: mártir;
giolhos: joelhos;
perlinhas finas: pérolas de boa qualidade;
polo eu: graças a mim;
E prouve ao Zé Povinho/ que todos acharam cantinho: lugares conquistados na Assembleia após as eleições legislativas.


Maria Ortigão

terça-feira, janeiro 03, 2006

AUTO DA BARCA DAS PRESIDENCIAIS (parte III)

Vem o Onzeneiro Cavaco Silva, e pergunta ao Arrais do Inferno, dizendo:

Onzeneiro: Pera onde caminhais?

Diabo: Oh! que má-hora venhais,
onzeneiro, meu parente!
Como tardastes vós tanto?

Onzeneiro: Mais quisera eu lá tardar…
Estava um bolo-rei a tragar
quando me deu Saturno quebranto.

Diabo: Ora mui muito m’espanto
nom vos livrar o tabu!

Onzeneiro: Bem me calei mui caladinho,
nom falei dos meus projectos
a ver se ganhava de fininho.

Diabo: Ora entrai, entrai aqui!

Onzeneiro: Não hei eu i d’embarcar!

Diabo: Oh! que gentil recear,
e que cousas pera mi!...

Onzeneiro: Ainda agora faleci,
leixa-me buscar batel!

Diabo: Santo tabu!
Nunca tanta pressa vi!

Onzeneiro: Pera onde é a viagem?

Diabo: Pera onde tu hás-de ir.

Onzeneiro: Havemos logo de partir?

Diabo: Não cures de mais linguagem!

Onzeneiro: Pera onde é a passagem?

Diabo: Pera a infernal comarca.

Onzeneiro: Dix! Nom vou eu em tal barca.
Estoutra tem avantagem.

Vai à barca do Anjo, e diz:

Onzeneiro: Hou da barca! Houlá! Hou!
Haveis logo de partir?

Anjo: E onde queres tu ir?

Onzeneiro: Eu pera Belém vou.

Anjo: Pois cant’eu mui fora estou
de te levar pera lá.
Essa barca que lá está
vai pera quem te enganou.

Onzeneiro: Porquê?

Anjo: Porque esse saco de laranjas
e esse carro
tomarão todo o navio.

Onzeneiro: Juro a Deus que só lhe faço a rodagem!

Anjo: Conheço bem a tua voragem.

Onzeneiro: Lá me fica, de rodão,
os dinheiros que da UE recebi
e que muito mal geri.

Anjo: Ó onzena, como és fea!
E filha de maldição!

Torna o Onzeneiro Cavaco Silva à barca do Inferno e diz:

Onzeneiro: Houlá! Hou Demo barqueiro!
Sabês no que me fundo?
Quero lá tornar ao mundo
e trarei o meu dinheiro.
Aqueloutro marinheiro,
por que me vê vir sem nada,
dá-me tanta borregada
como arrais lá de Boliqueime.

Diabo: Entra! Entra! Remarás!
Nom percamos mais maré!

Onzeneiro: Todavia…

Diabo: Per forç’é!
Que te pês, cá entrarás!
Irás servir Santana
pois que sempre te ajudou.
Esperavas de vencer;
calaste dous mil enganos.
Tu roubaste bem dez anos
o povo com teu mester.

Onzeneiro: Ó triste, quem me cegou?

Diabo: Cal’-te, que cá chorarás.

Entrando o Onzeneiro Cavaco Silva no batel, onde achou o Fidalgo Mário Soares embarcado, diz, tirando o barrete:

Onzeneiro: Santo Sá Carneiro!
Cá é vossa senhoria?

Fidalgo: Dá ò demo a cortesia!

Diabo: Ouvis? Falai vós cortês!
Vós, fidalgo, cuidareis
que estais na vossa Brigada?
Dar-vos-ei tanta pancada,
como a que já levaste,
que renegueis!

quando me deu Saturno quebranto: quando morri; Saturno: deus responsável pela duração da vida humana;
Dix: Já disse!;
borregada: pancada;
Que te pês: ainda que te custe;
mester: profissão;



Maria Ortigão

AUTO DA BARCA DAS PRESIDENCIAIS (parte IV)

Vem Garcia Pereira, o Parvo, e diz ao Arrais do Inferno:

Parvo: Hou daquesta!

Diabo: Quem é?

Parvo: Eu sô!
É esta a naviarra nossa?

Diabo: De quem?

Parvo: Dos tolos ilustres desconhecidos
que teimam em se candidatar.

Diabo: Vossa.
Entra!

Parvo: De pulo ou tendo só um voto?
Hou! Pesar de meu MRPP!
Soma: vim adoecer
e fui má-hora a morrer,
sem nunca ter conseguido debater.

Diabo: De que morreste?

Parvo: De quê?
Samicas de desgosto.

Diabo: De quê?

Parvo: Por não ser um candidato a gosto.
Má ravugem que te dê!

Diabo: Entra! Põe aqui o pé!

Parvo: Houlá! Num tombe o naviato.

Diabo: Entra, tolaço candidato,
que se nos vai a maré!

Parvo: Aguardai, aguardai, houlá!
E onde havemos nós d’ir ter?

Diabo: À terra em que nunca te convidarão para um debate.

Parvo: Há-a-a…

Diabo: Nem aceitarão a tua candidatura!
Entra cá!

Parvo: Não me poderei candidatar?
Eramá!
Hiu! Hiu! Barca do cornudo.
Mário Soares, bochechudo
idoso de Belém, huhá!
Cavaco Silva,
antrecosto do carrapato
cravado no português sapato!
Hui! Hui! Caga no sapato,
filho da grande aleivosa!
Francisco Louça é feio
e há-de parir um sapo
chantado no guardenapo!
Neto de cagarrinhosa.
Manuel Alegre furta-esquerdas! Hiu! Hiu!
Escomungado do PS.
Burrela, derrotado sejas!
Toma o amigo que te perdeu!
Os apoiantes que te fugiram
per’as Ilhas Soaristas!
Cornudo atá mangueira
Toma o amigo que te perdeu!
Hiu! Hiu! Jerónimo de Sousa, lanço-te uma pulha!
Dê-dê! Pia nàquela.
Hump! Hump! Caga no comunista!
Hio, cabeça de grulha rouca!
Perna de leninista velha,
marxista de coelha,
pelourinho do Alentejo!
Mija no PCP, mija no PCP!

Chega o Parvo ao batel do Anjo, e diz:

Parvo: Hou da barca!

Anjo: Que me queres?

Parvo: Queres-me dar a vitória?

Anjo: Quem és tu?

Parvo: Samica alguém.

Anjo: Tu ganharás, se quiseres;
porque em todas as tuas candidaturas
per malícia nom te candidataste.
Fizeste-o por seres pobre de espírito
para aos poderosos dares um manguito.
Espera entanto per i;
veremos se vence alguém
merecedor de tal vitória
que deva entrar aqui.

Soma: em suma;
Samicas: se calhar;
ravugem: sarna;
Eramá!: livra!;
Mário Soares, bochechudo e seguintes versos: reacção com uma série de insultos a todos os candidatos;
antrecosto do carrapato: espinhaço de piolhos;
chantado: sentado;
Neto de cagarrinhosa: termo injurioso;
Burrela: termo injurioso;
Cornudo atá mangueira: termo injurioso;
pulha: praga;
Pia nàquela: aguenta-te com a praga;
grulha: palrador.



Maria Ortigão

quinta-feira, dezembro 29, 2005

AUTO DA BARCA DAS PRESIDENCIAIS (parte II)


Vem o Fidalgo Mário Soares e, chegando ao batel infernal, diz:

Fidalgo: Esta barca onde vai ora,
que assi está cheia de galões?

Diabo: Vai pera a ilha sem eleições
e há-de partir logo ess’ora.

Fidalgo: Pera lá vai a senhora?

Diabo: Senhor, a vosso serviço.

Fidalgo: Parece-me isso cortiço…
Nas minhas inúmeras viagens
vi muito melhor do que isso!

Diabo: Porque a vedes lá de fora.
Fidalgo: Porém, a que terra passais?

Diabo: Para o Inferno sem eleições, senhor.

Fidalgo: Terra é bem sem-sabor.

Diabo: Quê? E também cá zombais?

Fidalgo: E passageiros achais
pera tal habitação sem presidenciais?

Diabo: Vejo-vos eu em feição,
pera ir ao nosso cais…

Fidalgo: Parece-te a ti assi!...

Diabo: Em que esperas ter guarida?

Fidalgo: Que leixo na outra vida
quem vote sempre em mim.

Diabo: Quem vote sempre em ti?!...
Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!...
E tu fizeste campanha a teu prazer,
cuidando cá guarecer
por que votam lá por ti?!...
Embarcai. Hou! embarcai,
que haveis de ir à derradeira.
Mandai meter a tartaruga,
que assi passou vosso pai.

Fidalgo: Quê? Quê? Quê?
Assi lhe vai?

Diabo: Vai ou vem, embarcai prestes!
Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.
Pois que já a morte passastes,
haveis de passar o rio.

Fidalgo: Não há aqui outro navio?

Diabo: Não, senhor, que este fretastes,
e primeiro que espirastes
me deste logo sinal.

Fidalgo: Que sinal foi esse?

Diabo: Do que vós vos contentastes.

Fidalgo: A estoutra barca me vou.
Hou da barca! Para onde is?
Ah, barqueiros! Não me ouvis?
Respondei-me! Houlá! Hou!
(Par Deos, aviado estou!
Cant’a isto é já pior…)
Que giricocins, salvanor!
Cuidam que não tenho idade
pera ser mais repeitado?

Anjo: Que quereis?

Fidalgo: Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do Paraíso eleitoral
é esta em que navegais.

Anjo: Esta é; que demandais?

Fidalgo: Que me leixeis embarcar.
Sou o melhor dos candidatos,
é bem que me recolhais.

Anjo: Não se embarcam convencidos
neste batel divinal.

Fidalgo: Não sei porque haveis por mal
que entre a minha senhoria…

Anjo: Pera a vossa sede de poder
mui estreita é esta barca.

Fidalgo: Pera senhor de tal idade
nom há aqui mais cortesia?
Venha a prancha e atavio!
Levai-me desta ribeira!

Anjo: Não vindes vós de maneira
pera ir neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a tartaruga entrará,
os bilhetes de viagens acomodar-se-ão,
e o rabo caberá
e todo o vosso senhorio.
Vós ireis mais espaçoso
com convencida senhoria,
cuidando que éreis o melhor
o pobre povo queixoso não ouvistes
e por isso levastes;
e porque, de mentiroso,
afirmastes que não vos recandidatáveis
e fizestes de nós ursos
que temos de ouvir os vossos discursos.
Não tivestes pejo
em passar por cima do teu amigo
só porque gostais mais do vosso umbigo.

Diabo: Às eleições, às eleições, senhores!
Oh! que maré tão de prata!
Um ventozinho que mata
e valentes candidatos!

Diz cantado:
Vós estais doidinhos para lixar o povo;
para lixar o povo estais doidinhos.

Fidalgo: Ao Inferno todavia!
Inferno há i pera mi?
Ó bochechas! Enquanto me recandidatei
não cuidei que o i havia.
Pensava que era fixe;
não, que era fixíssimo;
Folgava dizer mal do Cavaco
e não vi que me perdia.
Venha essa prancha! Veremos
Essa barca sem vitórias eleitorais.

Diabo: Embarque a vossa gordura,
que cá nos entenderemos…
tomarês um par de remos,
veremos como remais,
e, chegando ao nosso cais,
todos bem vos apoiaremos.

Fidalgo: Esperar-me-ês vós aqui,
tornarei à outra vida
ver minha Brigada do Reumático querida
que está muito triste por mi.

Diabo: Que está muito triste por ti?

Fidalgo: Isto bem certo o sei eu.

Diabo: Ó candidato sandeu,
o maior que nunca vi!...

Fidalgo: Como pod’rá isso ser,
que m’apoiava sempre?

Diabo: Quantas mentiras ouvias,
e tu… morto de prazer!...

Fidalgo: Pera que é escarnecer,
que não havia outro que mais adorassem?

Diabo: Assi tires tu a sesta, amem,
como te tinha querer!

Fidalgo: Isto quanto ao que eu conheço…

Diabo: Pois estando tu espirando,
estava a Brigada apoiando
outro candidato de menos preço.

Fidalgo: Dá-me licença, te peço,
que me recandidate às eleições de 2011.

Diabo: E o povo, por não te ver,
despenhar-se-á dum cabeço.
Quanto o povo hoje rezou,
antre seus gritos e gritas,
foi dar graças infinitas
a quem o desassombrou.

Fidalgo: Cant’a ele, bem chorou!

Diabo: Nom há i choro de alegria?

Fiadalgo: E as lástimas que dizia?

Diabo: Era tudo uma grande mentira.
Entrai! Entrai! Entrai!
Ei-la prancha! Ponde o pé…

Fidalgo: Entremos, pois que assi é.

Diabo: Ora, senhor, fazei uma sesta,
passeai e discursai.
Em tanto vinrão mais candidatos.

Fidalgo: Ó barca, como és ardente!
Maldito quem em ti vai!

Diz o Diabo à Page Joana Amaral Dias:

Diabo: Nom entras cá! Vai-te d’i!
A tartaruga é cá sobeja:
cousa que esteve nas mãos de uma bloquista
nom há-de embarcar aqui.
Cousa que assistiu ao fim
da amizade entre Soares e Alegre
não pode ir neste palanquim…
Às eleições, às eleições, bons candidatos,
que queremos votar!
Chegar a elas! Chegar a elas!
Muitas e de boa mente!
Oh! Que campanha tão valente!

Segundo lá escolhestes,/ assi cá vos contentai: de acordo com a vida levada na terra, a alma será castigada ou recompensada;
Não, senhor, que este fretastes,/ e primeiro que espirastes/ me deste logo sinal: quando o Fidalgo morreu, já se sabia que iria para o Inferno;
Do que vós vos contentastes: actos ilícitos e pecaminosos do Fidalgo;
Cant’a isto é já pior…: inquietação do Fidalgo face ao silêncio com que é acolhido pelo Anjo;
Que giricocins, salvanor!: que anos, meu Deus!;
atavio: apetrechos.


Maria Ortigão

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Não sei se alguém já se lembrou...?

... mas a culpa de Soares ter voltado ao activo é do partido Socialista que adiou a idade da reforma! Só falta explicar ao Sr. que já passou da idade; é natural que tenha problemas de memória principalmente quando se confunde 81 com 18.
M.Q.

Conversas reais

Num café... ouve-se o ruído da rua.

Interveniente número um pergunta:
- O que é isso, campanha para as Presidenciais?

Número dois responde:
- Não, é do circo! a diferença não é muita.

Número um:
- pois não, os palhaços é que são diferentes!


M.Q.

sábado, dezembro 24, 2005

ADAPATAÇÃO LIVRE DA HISTÓRIA DO NATAL



Só para provar que os homens são parvos, eis a história do maior logro de sempre que atesta a superioridade feminina.
Tudo começou quando Maria revelou a sua gravidez a José, dizendo que ia ter um filho imaculada e divinamente concebido. Apesar de tudo, louvável a atitude de José ao aceitar e criar como sua uma criança não biológica. Já não se fazem homens como antigamente!
Na verdade, o que aconteceu foi que, durante uma noite, no banco de trás da carroça de um qualquer pastor abastado (já naquela altura, havia quem tivesse bombas com dois cavalos), Maria teve o azar de usar um preservativo defeituoso. Como a Igreja Católica é contra a utilização de tais métodos contraceptivos e, na impossibilidade de processar a marca dos preservativos, aceitou uma história que ratifica a omnipotência de Deus.
Naquele tempo, o mau funcionamento do Estado obrigava um cidadão a deslocar-se muitos quilómetros para se recensear na cidade de nascimento, por isso, José e Maria partiram. Durante a viagem de regresso, José teimou em não parar para perguntar o caminho para uma estalagem, a fim de descansarem. Assim, tiveram de passar a noite numa gruta. E nasceu Jesus.
Estando a experimentar as maravilhas do turismo rural, a família escapou à cruel decisão do rei da Galileia. A felicidade dos jovens teria sido interrompida por um louco governante, ciente de uma profecia que vaticinava o nascimento do Salvador. Por isso, e com medo de perder o seu poder e de não conseguir continuar a distribuir “jobs for the boys”, mandou matar todos os varões até três anos de idade.
Entretanto, na Lapónia, o Pai Natal queixa-se por ter de tanto trabalhar um só dia por ano. Mal sabia ele que tal paraíso também existe nas repartições de finanças portuguesas. A bem dizer, queixa-se sem razão, porque por detrás de tão grande sucesso está a Mãe Natal que se encarrega da gestão da fábrica de brinquedos. E ainda é uma extremosa esposa que lhe passa a ferro o fato e lhe enche o enorme bandulho.
Bem, chegou a hora de começar a distribuir os presentes. O Pai Natal aparelha o trenó e dá início à volta ao mundo num dia. E houve um incapaz muito apreciado que demorou mais 79!
Os três Reis Magos ficaram pior que estragados com as prendas que o Natal lhes trouxera. Ouro, incenso e mirra? Que coisa mais fora de moda! Até parece que a nobreza já não tinha montanhas de ouro, de incenso e de mirra. Não se podiam ficar, por isso decidiram ir atrás daquele velhote, patrocinado pela Coca-cola.
Quando olharam pelas vidraças dos seus palácios, ainda foram a tempo de ver o rasto que o nariz brilhantemente vermelho da rena Rodolfo deixava na noite escura. Aquilo é que era um bebedolas! O Rodolfo, sempre que podia, metia o focinho na garrafeira da Lapónia e era carraspana atrás de carraspana. Tinha tido sorte até agora, uma vez que nunca fora apanhado por nenhuma brigada de trânsito aéreo.
Aproveitando, então, a luz de uma das renas do Nicolau, os três Reis Magos montaram nos seus camelos e seguiram o trenó. No entanto, não conseguiram apanhá-lo e viram-se, de repente, numa terra distante. Reparam que os pastores locais iam ver uma criança que tinha nascido há pouco. Gente pobre gosta muito destas lamechices, pensavam os Reis. Até que tiveram uma brilhante ideia. O que se faz com as prendas que recebemos e das quais não gostámos? Oferecem-se a outros na primeira ocasião que tivermos. Foi assim que os Reis Magos seguiram os pastores até ao local, onde tinha nascido a criança.
Quando chegaram, deram o ouro, o incenso e a mirra à família. Como era pobre, devia gostar. Os nobres só se arrependeram de uma coisa: não terem chegado mais cedo para ajudar a escolher um nome mais engraçadito para o puto. Jesus! Por amor de Deus, esse nome nunca há-de pegar!

Manuela Queirós
Maria Ortigão



domingo, dezembro 18, 2005

So porque eu gosto mais de J. Palma...

[...como é que era?...] aquando da explicação acerca do É tão bom: "...a malta dos 25, na frente dos concertos começou a pedir, em estado natural sem (ingerir) químicos..." Alguém explica ao sr. Godinho que a Adrenalina é uma substância quimica, natural que altera o estado de espírito, consciência?!
M.Q.

Coincidência/ (subconsciente?!)

estar a ler o Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, quando Cavaco se habilita a um novo cargo político(?!)
M. Q.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

DIÁRIO DE UMA UTENTE DOS SERVIÇOS DA SEGURANÇA SOCIAL, A SAGA CONTINUA…


14 de Novembro de 2005


Querido Diário, voltei ao local do crime. Sim, pela tua expressão horrorizada sei que já percebeste que fui aos eficazes, eficientes, rápidos, absolutamente competentes e extraordinariamente simpáticos (nota, amigo pautado e de capa dura, que estes adjectivos, que acabei de rabiscar, saíram assim, PUFF, sem meditar) Serviços Sociais.
Mas por que motivo me fui lá enfiar outra vez, perguntas tu, temendo que eu ande sob o efeito de narcóticos. Sossega, pequeno caderno, não é nada disso que tu estás a pensar. No entanto, o que nós não fazemos pela nossa mãe? Não a podia deixar ir sozinha àquele antro de perdição.
Pois bem, a minha mãe ia dar, como faz todos os meses, a sua contribuição para a Segurança Social. Quando chegou a sua vez, o senhor que a atendia disse-lhe que não podia aceitar o pagamento, porque a minha mãe, segundo as informações que tinha no computador, já não pagava desde Março de 2003. Ah! Ah! Ah! Para além de eficazes, eficientes, rápidos, absolutamente competentes e extraordinariamente simpáticos são danados para a brincadeira, os doidivanas! Foi, então, que eu reparei que o senhor não se ria. Quer dizer que, apesar de a minha mãe, efectivamente, ter as contas em dia, como o comprovam os recibos que tem em casa e de ter, naquele momento, o recibo do mês anterior à frente do nariz do funcionário, estava a ser dada como devedora ao Estado. E mesmo que fosse devedora ao Estado, só se lembravam de avisar dois anos e nove meses depois?!
Tivemos de ir ao departamento de informações para saber o que fazer. Havia trinta pessoas à frente e eu sem livro. Ou via o “Natal dos Hospitais” sem som ou lia as revistas “Maria”, ou seja, encontrava-me num dos círculos do inferno de Dante.
Muito tempo depois e com o cérebro um pouco vegetalizado, chegou a nossa vez. Foi-nos dito exactamente o mesmo, que a minha mãe era uma caloteira do caraças e que para tentar regularizar a situação havia que fazer uma reclamação por escrito, acompanhada de fotocópias de todos os recibos dos pagamentos feitos a partir de Março 2003. Tentar regularizar a situação? Tentar? Quem desregularizou a situação foram vocês, seus anormais! Vocês é que têm não de tentar regularizar a situação, mas de a resolver e ponto, palermas acéfalos! É óbvio que houve um erro no sistema informático ou um da vossa equipa de totós introduziu mal os dados e só agora é que repararam na “situação desregularizada”. Já agora, porquê chamar “situação desregularizada” e não “erro crasso desta cambada de pategos que não percebe nada do que anda a fazer”? É que se insistem com a “situação desregularizada”, ainda se pensa que basta comer uns iogurtes com “bifidus activo” que se regulariza num instante! Bando de parvalhões que nem para arrumadores de carros serviam.
Não, amigo Diário, não disse nada disto, mas vontade… ah, a vontade… Apenas esboçámos um sorriso amarelo e a afirmar que trataremos de tudo o mais rapidamente possível.



Maria Ortigão


PESSOA MADRUGADOR(A)


No passado dia 30 de Novembro, recordou-se (acho de muito um gosto empregar-se a palavra “celebrar”) a morte do poeta Fernando Pessoa.
Nesse dia, consultei a programação dos canais televisivos e foi com grande espanto e igual dose de alegria que verifiquei que a RTP1 ia transmitir três programas dedicados a Pessoa, totalizando cinco horas de emissão contínua. Isto, sim, é serviço público! O problema é que os tais programas iam para o ar entre a 1 hora e as 6 horas da manhã!!! Certamente que mochos, morcegos e outros animais nocturnos ficaram contentes. Isto, não, não é serviço público.
Só me restava gravar os programas, mas nem tinha cassete com tanto tempo de duração nem sequer tinha disponibilidade de ir comprar outra com mais minutos de gravação. Tive de fazer uma opção: gravar uma hora da parte final do primeiro programa, o segundo completo e a primeira meia hora do terceiro. Era o que se podia arranjar.
Finalmente, chegara o momento de visionar o que tinha gravado. Os programas eram de há vinte anos atrás, mas a cavalo dado não se olha o dente e a qualidade é o mais importante. Foi muito interessante assistir, no meio dos depoimentos de académicos e estudiosos pessoanos, às histórias da meia-irmã Teca e de uma sobrinha-neta, porque incidiram mais sobre o homem do que sobre o poeta. No homem divertido, atencioso e carinhoso para com os mais pequenos da família, mas também no homem solitário, carregando para sempre a sua inseparável dor de pensar.
O terceiro era um programa realizado por Luís de Sttau Monteiro. Lá interessante devia ser, pela meia hora que vi. Só vi, porque o áudio estava em péssimas condições, não se conseguindo perceber. E o mais interessante é que ninguém da RTP fez nada, não houve interrupção para tentar restaurar a boa sonoridade. Suponho que foi assim até ao final. Se calhar, pensaram que, como não devia estar vivalma a ver televisão àquela hora, não precisavam de se preocupar.
Não percebo por que razões não passaram aqueles programas a horas mais visíveis ao comum dos portugueses. Dedicam dias inteiros a transmissões apimbalhadas sobre o dia do idoso, do voluntário, do bombeiro e não sei mais o quê e esquecem um dos maiores poetas portugueses. Está bem que aquelas transmissões têm o bem-haja de angariar fundos e de chamar a atenção para questões importantes, mas a quantidade de músicos e músicas de qualidade infra é insuportável. Acaso as “poesias” de Mónica Sintra e os peitos da cabritinha de Quim Barreiros são mais solidários que os escritos de Pessoa?
Como é Natal, aqui ficam uns docinhos.

Maria Ortigão

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Fernando Pessoa

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda agente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo arrefece
Tenho frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa



O MELHOR DO MUNDO SÃO AS CRIANÇAS


Perguntei a um adolescente de 13 anos o que gostaria de ser quando fosse grande. Sei que a pergunta não prima pela originalidade, sobretudo, depois de Hélder Reis do “Praça da Alegria” a fazer sempre que encontra uma criança. E tendo em conta que ele visita muitas escolas e instituições para os mais pequenos…
Tentando afastar “grandes momentos televisivos” da cabeça, à minha pergunta o miúdo respondeu nestes termos:
— Não quero fazer nada!
Não é enternecedor, quando os “piquenos” respondem de todas as maneiras menos daquelas que nós gostaríamos?
Em seguida, expliquei-lhe que teria de ter um trabalho não só para se realizar materialmente, porque, afinal, precisava de dinheiro para comprar o pão do dia-a-dia; como também para se realizar pessoalmente, porque, afinal, nem só de pão vive o homem.
O rapaz ficou um tempo a pensar. “Já vejo luz ao fundo do túnel”, pensava eu. Só não sabia que o túnel levar-me-ia às mais obscuras trevas, pois deparei-me com a seguinte afirmação:
— Quero ser como o Alexandre Frota!
Independentemente do que os pedagogos e todas as teorias educacionais possam dizer, este miúdo deve ser espancado violenta e ferozmente!

Maria Ortigão



AUTO DA BARCA DAS PRESIDENCIAIS (parte I)


Auto das Presidenciais adaptado por Maria Ortigão por contemplação da estranhíssima e muito interessante campanha eleitoral, e representada por seu mandado ao poderoso e mui alto regime D. Democracia, rainha de Portugal com este nome.
Começa a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos supitamente a umas eleições, as quais per força havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto estão, scilicet, um deles passa para o paraíso, e o outro pera o inferno: os quais batéis tem cada um seu arrais na proa: o do paraíso um anjo, e o do inferno um arrais infernal e um companheiro.
O primeiro interlocutor é um fidalgo que chega com uma page, que lhe leva um rabo mui comprido, muitos bilhetes de viagens e uma tartaruga. E começa o arrais do inferno ante que o Fidalgo venha.

Diabo: Às eleições, às eleições, houlá!
que temos gentil campanha eleitoral!
- Ora venha o candidato presidencial!

Companheiro: Aí vem, aí vem!

Diabo: Bem está!
Vai tu, muitieramá,
atesa aquele palanco
e despeja aquele banco,
para a gente que vinrá.
Às eleições, às eleições, hu-u!
Asinha, que se quer eleger!
Oh, que tempo de votar,
louvores a Berzebu!
- Ora, sus!, que fazes tu? eia! vamos!
Despeja todo esse leito!

Companheiro: Em boa campanha! Feito, feito!

Diabo: Abaxa má-hora esse cu!
Faze aquela urna eleitoral
E alija aqueles boletins.

Companheiro: Ô!-ô! vota! Ô!-ô!, ins! ins!

Diabo: Oh, que campanha esta!
Pões bandeiras, que é festa.
Debates altos! Sondagens a pique!
- Ó poderoso dom Mário Soares,
cá vindes vós? Que cousa é esta?

Continua…

Scilicet: isto é;
Muitieramá: em muito má hora
atesa aquele palanco
e despeja aquele banco,
para a gente que vinrá: o Diabo ordena que se arranje espaço para os candidatos presidenciais que estão a caminho.
Asinha: depressa
sus!: eia!, vamos!

Maria Ortigão

quinta-feira, dezembro 01, 2005

FENÓMENO DO ENTRONCAMENTO


Não queria acreditar no que via. Simplesmente, não podia ser verdade. O problema tinha de estar em mim: precisava urgentemente de óculos; estava a ser vítima de uma alucinação; andava a beber iogurtes líquidos a mais, logo os meus níveis de lactosemia estavam muito altos; ou era tudo obra do Demo.
Pois estes dois, que ainda não sei se a terra há-de comer, vislumbraram um adulto a conduzir o seu veículo automobilizado. E, enquanto se afadigava entre o volante e as mudanças, transportava no colo um bebé com não mais de cinco meses de idade.
Como esta situação custa a ser compreendida, vou tentar explicar melhor o inexplicável. Assim, uma criança de meses não estava a ser transportada, num carro, nem no cesto de bebé nem numa cadeirinha, colocada no banco traseiro. Estava, sim, no colo do adulto que conduzia o carro!!!
Até hoje, prefiro acreditar que, naquele momento, me rebentou uma veia na cabeça, o que me perturbou a visão.

Maria Ortigão